Minha


Já és Minha

Pablo Neruda

Já és minha...
Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido...
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos...
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.
sempre viva. sempre sol ... sempre lua...
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo...
teus olhos se fecharam como
duas asas cinzas, enquanto eu sigo a água
que levas e me leva.
A noite... o mundo... o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...

Sedução


SEDUÇÃO

A.D.

Quero te seduzir
mergulhar em seu corpo
descobrir seus encantos
descobrir seus segredos
mergulhar na tua floresta
sugar sua seiva
me lambuzar com seu mel.
Quero te levar a loucura
insana...profana...das
delícias do meu sexo.
Quero sentir seu gemido
forte enlouquecido
e deixar-me ficar
em seus braços
entorpecida de tesão
de amor e paixão....
Quero te levar ao infinito
num orgasmo lindo
descomedido....
Quero mostrar a ti...todos
meus imensos desejos...
que é sentir teu corpo
tremulo a percorrer o meu!

Desejo


Desejo
 

(Glauber)


Queria você profundamente aberto
Num beijo apaixonado sem memória e futuro
Queria
prazer desintegrado no infinito amor de nossos corpos desconhecidos
Queria um rio negro
como branco
contando a vitória
De uma tragicomédia morta
Queria o mar amoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

Cisne


O cisne negro

Kilhwych(tradução Mário Faccioni)

Desde antes de anoitecer
dois olhos ardentes como chamas
cravam em mim e me penetram.

Em um instante ninhas entranhas
viram brasa em uma violenta fogueira
e transforma meu sangue en uma torrente de lava incandecente.
Vergonha, embriaguez, incesto,
odio, ceus, suicidio, destruição e morte
se levantam qual labaredas pretas
de furioso incendio que a tudo em seu redor devasta.

Negro cisne de espléndida beleza,
capulo noturno que reinventas
nas sinistras petalás de desejos inconfessados,
és o momento, minha doçura e meu tormento
enganoso impostor que exacerbas
a loucura de minha erótica paixão.

Posto a máscara
que a mim mesmo ocultava,
e vencido pelo peso do desepero,
me imolo no altar do meu proprio leito
de onde toda a vida humana
tem seu começo
e leva a seu fim.

Liberado de sua crisálida seda,
repousa o menino finalmente,
aconchegado docemente nos braços vigorosos
de seu amado cisne branco.

Boca


Cortázar, em Rayuela, Cap 7

Toco tu boca, 
con un dedo toco el borde de tu boca, 
voy dibujándola como si saliera de mi mano, 
como si por primera vez tu boca se entreabriera, 
y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, 
hago nacer cada vez la boca que deseo, 
la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, 
una boca elegida entre todas, 
con soberana libertad elegida por mí 
para dibujarla con mi mano en tu cara, 
y que por un azar que no busco comprender 
coincide exactamente con tu boca 
que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, 
de cerca me miras, 
cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, 
nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, 
se acercan entre sí, 
se superponen y los cíclopes se miran, 
respirando confundidos, 
las bocas se encuentran y luchan tibiamente, 
mordiéndose con los labios, 
apoyando apenas la lengua en los dientes, 
jugando en sus recintos donde un aire pesado 
va y viene con un perfume viejo y un silencio. 

Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, 
acariciar lentamente la profundidad de tu pelo 
mientras nos besamos como si tuviéramos 
la boca llena de flores o de peces, 
de movimientos vivos, 
de fragancia oscura. 

Y si nos mordemos el dolor es dulce, 
y si nos ahogamos en un breve y terrible 
absorber simultáneo del aliento, 
esa instantánea muerte es bella. 

Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, 
y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.